Notícia

24 de Novembro de 2017

A crise do leite

Ao longo dos últimos meses acompanhamos uma nova movimentação de atores sociais, políticos e instituições em torno da cadeia produtiva do leite. A atividade, reconhecidamente uma das mais importantes em termos de manutenção e desenvolvimento da agricultura familiar no Rio Grande do Sul (97% dos produtores de leite do estado são enquadrados como familiares), passa por mais uma de suas grandes e cíclicas crises.

O preço do litro de leite pago ao produtor sofreu redução significativa. Comparado com o mesmo período do ano anterior, a redução chega a 30%. Segundo o Sindicado da Industria de Laticínios e Produtos Derivados do Estado (Sindilat),o preço baixo é fruto dos grandes estoques das industrias nacionais, ocasionadas pela importação de leite do Uruguai (medida suspensa no último mês de outubro). A redução dos valores, por si só, já poderia responder a debandada dos produtores da cadeia produtiva (segundo dados da Emater, somente no último ano houve uma queda de 22% no número de produtores no estado), porém este fato não explica integralmente esse movimento.

A atividade leiteira, assim como sua importância, é conhecida pela penosidade do trabalho envolvido. As pessoas ligadas à produção de leite necessitam dar uma atenção especial diariamente a atividade. “Todos os dias é dia de tirar leite”; “todos os dias é dia de alimentar a vaca”; “todos os dias é dia de cuidar do rebanho”. Com chuva, com sol, com frio, com calor, de segunda à segunda. Todo dia é dia de trabalhar para quem está vinculado à produção de leite.

Mesmo com muitos avanços ao longo dos últimos anos, em especial no quesito tecnologias/mecanização, trabalhar com a produção de leite não é fácil. Exige que os envolvidos praticamente não se comprometam com outras atividades/ tarefas. Em uma pequena unidade de produção, por menor que seja a intensificação da produção, é necessário o envolvimento, quase ininterrupto, de uma ou duas pessoas.

A necessidade de envolvimento e a dedicação dos produtores de leite poderiam responder também pela atual situação de crise e abandono da atividade. Ademais, a falta de sucessão familiar, que acaba ocasionando o envelhecimento populacional e a masculinização no meio rural, são fatores que também devem ser considerados para compreensão da situação atual.

A cadeia produtiva do leite acaba não sendo mais a melhor, ou em alguns momentos a única, alternativa de renda e de manutenção das famílias no meio rural. Atividades menos “penosas” e com a necessidade de menor envolvimento constante, como é o caso da produção de alfafa, em alguns dos municípios da Região Missões, acaba ocupando o espaço antes dominado pela pecuária leiteira.

Portanto, encontrar alternativas para as cíclicas crises da cadeia produtiva do leite não perpassa somente por resolver problemas relacionados à própria cadeia. A produção de leite é necessária e pode ser considerada uma importante alternativa de desenvolvimento e de renda para a agricultura familiar. Porém, a atividade não pode ser analisada por um único viés.

É necessário considerar que existem produtores especializados. Nestes casos, a produção leiteira não pode ser considerada como um “hobby”, ou atividade secundária, deve ser levada à sério e ser assumida pelos produtores como importante, como um negócio, fundamental para a manutenção da unidade de produção.Técnica e manejos adequados para a realidade de cada um dos produtores devem ser consideradas e implementadas. O manejo alimentar do rebanho é apresentado por alguns especialistas como a questão central para a manutenção da atividade. Água e pasto de boa qualidade são fundamentais para o “sucesso” produtivo e econômico dessas unidades de produção.

Entretanto,também é necessário levar em consideração que existem produtores de leite não especializados. A maior parte das propriedades rurais que produzem leite não dependem centralmente da atividade. Neste caso, o leite é somente mais uma atividade e fonte de renda. Para estes produtores,quanto menor a dependência de insumos externos à propriedade melhor. A produção de leite deve ser oriunda dos insumos internos, basicamente pastagem nativas e/ou perenes, manejadas com insumos naturais.

A superação das cíclicas crises na cadeia produtiva do leite, perpassa, portanto, pela compreensão do significado da atividade leiteira para a unidade de produção. Em alguns casos a produtividade e a especialização serão centrais, em outros não.Por tanto é imprescindível a compreensão da diversidade de tipos de situações vivenciadas nas unidades de produção. Daí a necessidade de diferentes estratégias a serem adotadas por produtores e pela assistência técnica e extensão rural.

Crise após crise o problema central da discussão permanece inalterado. É evidente a necessidade de discutir e construir alternativas políticas em termos dos mercados, uma vez que o problema central da cadeia produtiva do leite, que afeta todos os tipos de produtores, é a diferença entre o preço pago ao produtor e o preço pago pelo consumidor.

É salutar destacar que a falta de regulação do preço do leite pelo Estado brasileiro dificulta o equilíbrio das contas, especialmente em momentos de muita oferta. O leite deixou de ser pauta dos produtos amparados pelas ações do Estado, o qual se afastou das decisões centrais da cadeia produtiva desde meados da década de 1990. Atualmente a cadeia produtiva é comandada e controlada por grandes empresas. Nem mesmo as Cooperativas de pequenos produtores conseguiram sobreviver, muitas simplesmente deixaram de existir por não conseguirem se manter no sistema.

Deste modo, fica evidente que os movimentos em torno da crise do leite vão muito além de simples ações. A cadeia produtiva do leite deve ser vista e tratada por diferentes vieses. O Estado necessita coordenar e liderar as ações em prol da manutenção do sistema produtivo, não só pela relevância e importância do produto, mas pelo significado da cadeia produtiva do leite para os atores envolvidos, em especial os agricultores familiares. Novas ações que vão desde a assistência técnica visando melhorar os índices de produtividade a baixo custo, até politicas de regulação e controle de preços e de estoques, são necessárias.

GEPAD é um grupo de pesquisa sobre agricultura familiar e desenvolvimento rural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Fonte: Sul 21

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