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Produzir com estabilidade é o desafio dos produtores nas lavouras

1 mês atrás - por:

Os baixos níveis de manejo identificados nos diagnósticos feitos em 42 mil hectares no Programa Terra Forte ajudam a explicar por que a agricultura gaúcha convive com forte oscilação de produtividade entre uma safra e outra. Para pesquisadores e extensionistas, recuperar a funcionalidade do solo tornou-se condição para aumentar a estabilidade produtiva e reduzir essa variabilidade.
Segundo o pesquisador da Embrapa Trigo José Eloir Denardin, compreender o problema exige distinguir plantio direto de Sistema Plantio Direto. A agricultura avançou ao abandonar o revolvimento intensivo da terra, mas, em muitas áreas, deixou de praticar princípios do sistema completo, como diversificação de culturas, correção do perfil do solo e manutenção contínua de raízes capazes de construir uma estrutura funcional.
O que nós tínhamos que substituir não era a cobertura. Nós tínhamos que substituir o arado, a grade, o escarificador. E isso só pode ser substituído por uma coisa: a raiz”, afirma.
Na avaliação de Denardin, a simplificação do manejo concentrou fertilidade e raízes nos primeiros centímetros da superfície. Logo abaixo, especialmente entre 10 e 20 centímetros de profundidade, são frequentes a compactação, a acidez e a deficiência de nutrientes. Com o crescimento radicular limitado, a planta depende da água disponível perto da superfície e sofre mais rapidamente na estiagem. Em períodos de chuva intensa, a baixa porosidade reduz a infiltração e favorece o escoamento.
Um solo cujos indicadores físicos e químicos estão restritos à camada de 10 centímetros torna-se muito mais vulnerável tanto aos déficits quanto aos excessos de chuva”, explica.
Recuperar a funcionalidade significa reconstruir esse perfil para que água, ar e raízes ocupem maior profundidade. O pesquisador destaca a rotação de culturas e o uso de plantas de serviço, especialmente gramíneas de verão, como milho, milheto, capim-sudão e sorgos, cujos sistemas radiculares mais persistentes ajudam a alimentar a atividade biológica e a reorganizar a estrutura.
A recuperação, porém, não depende de uma prática isolada. O diretor do Departamento de Agricultura e Pecuária Familiar da SDR, Jonas Wesz, afirma que muitas áreas exigirão a combinação de descompactação, terraceamento, correção da acidez e da fertilidade no perfil, plantas de serviço e diversificação de culturas.
O terraceamento, além de conter o escoamento e reduzir a erosão, mantém a água por mais tempo na lavoura e favorece sua infiltração e redistribuição.
o Presidente da Emater/RS-Ascar, Claudinei Baldissera observa que a adoção permanente dessas práticas é essencial para transformar a recuperação em estabilidade produtiva. Solos em níveis superiores de manejo, acrescenta, também podem oferecer melhores condições de acesso ao crédito rural, ao Proagro e ao seguro agrícola.
A transição também impõe um desafio financeiro. O superintendente do Senar-RS, Eduardo Condorelli, reconhece que o custo inicial pode inviabilizar a adoção das práticas em toda a propriedade de uma só vez. Por isso, defende implantação gradual, assistência técnica e linhas de investimento de longo prazo, compatíveis com o tempo necessário para a reconstrução do perfil do solo.
Segundo ele, o objetivo não deve ser apenas alcançar recordes, mas assegurar estabilidade em patamares que permitam ao produtor atravessar anos adversos e sustentar economicamente a atividade.
Denardin ressalta que o manejo não elimina os danos de uma estiagem extrema. A diferença está na parcela da produção que pode ser preservada em eventos menos severos e na capacidade de o sistema responder melhor às oscilações.
A estiagem determina a intensidade das perdas, porém a capacidade de o solo armazenar e disponibilizar água determina quanto da produção será preservada durante esses eventos”, resume.
É nessa capacidade de amortecer impactos, preservar parte maior do potencial produtivo e oferecer regularidade às colheitas que se concentra uma das principais estratégias para adaptar a agricultura gaúcha a um clima mais desafiador.
Fonte: Jornal do Comércio
Por:
Michele Nogueira
do autor

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